terça-feira, 5 de outubro de 2010

Espelho...

  Quando me surpreendo ao fundo do espelho assusto-me. Mal posso acreditar que tenho limites, que sou recortada e definida. Sinto-me, espalhada no ar, pensando dentro das criaturas, vivendo nas coisas além de mim mesma.
  Quando me olho no espelho não me assusto porque seja feia ou bonita. É que descubro de outra qualidade. Depois de não me ver há muito quase esqueço que sou humana e sou com a mesma libertação de fim e de consciência quanto uma coisa viva. Minha boca meio infantil, tão certa de seu destino, continuo igual a si mesma apesar de minha distração total. Às vezes, à um olhar constante ao espelho, um sorriso de compreensão para os que me olham. Período de interrogação ao meu corpo, de gula, de sono, de amplos passeios ao ar livre. Até que uma frase, um olhar relembram-me surpresa outros segredos, os que me tornam ilimitada. É a vida? Mesmo assim ela me escaparia. Outro modo de captá-la seria viver. Mas o sonho é mais completo que a realidade, esta me afoga na inocência.
  O que importa afinal: viver ou saber que se está vivendo? - Palavras muito puras, gotas de cristal. Sinto a forma  brilhante e úmida debatendo-se dentro de mim. Mas onde está o que devo dizer? Inspirai-me, eu tenho quase  tudo; eu tenho o contorno à espera da essência; é isso? - O que deve fazer alguém que não sabe o que fazer de si?
   Tudo o que possuo está muito fundo dentro de mim. Um dia, depois de falar, enfim,  ainda terei do que viver? Ou tudo o que eu falasse estaria do outro lado de cá e além da vida?
   No momento em que fecho a porta atrás de mim, instantaneamente me desprendo das coisas. Tudo o que foi distancia-se de mim mergulhando surdamente nas águas longínquas. Mas, mesmo assim, na solitude branca e limitada onde caio, ainda estou presa entre montanhas fechadas. Presa. Ando sobre trilhos invisíveis. Prisão, liberdade. São  essas as palavras que me ocorrem.

                    
                                                 

2 comentários:

  1. Me sinto assim também, esqueço que existe um eu visual, um eu que outros enxergam, mesmo assim, ao me ver não me reconheço, bom, não completamente.
    Ótimos post! Beijos!

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  2. Isto é interessante, pois é assim que me sinto todos os dias..



    E obg...
    ;*

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