quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Exposição de mim...


    Ultimamente tenho tido medo de escrever por causa dessa exposição toda... Todos adoram isso, adoram ler sobre minhas tristezas, alegrias que são cada vez mais raras e aquelas aventuras tolas e descartáveis. E ainda tem aquela sensação de vazio que eu sinto e que nunca passa, mas quase passa todos os dias.
   Mas pra te falar a verdade, eu prefiro ser fútil a ter que ser agradável e não agradar a ninguém. Prefiro ser vadia a ter que ser uma dessas putinhas com cara de anjo que trocam de amores a cada semana. Prefiro ser Eu mesma sempre a ter que trocar de identidade toda vez que encontro alguém diferente pra me divertir um pouco.
    E essa exposição de mim? Que se dane, é assim que sou, é assim que vivo, é assim que morrerei, me expondo!!! E o medo? Ah, o meu medo, eu escondo debaixo do tapete e finjo que não sinto nada, absolutamente nada! 



quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Sentir...



    O que seria então aquela sensação de força contida, pronta para rebentar em violência, aquela sede de empregar-me de olhos fechados, inteira, com a segurança irrefletida de uma fera? Não era no mal apenas que alguém podia respirar sem medo, aceitando o ar e os pulmões? Nem o prazer me daria tanto prazer como o mal, pensava surpreendida. Sinto dentro de mim um animal perfeito, cheio de inconseqüências, de egoísmo e vitalidade.
   Sim, eu sentia dentro de mim um animal perfeito. Repugna-me deixar um dia esse animal solto. Por medo talvez da falta de estética. Ou receio de alguma revelação... Não, não, - repito-me - e preciso não ter medo de criar. No fundo de tudo possivelmente o animal repugnava-me porque ainda havia em mim o desejo de agradar e de ser amada por alguém. Para depois pisar, repudiar sem contemplações. Porque a melhor frase, sempre ainda a mais jovem, era: a bondade me dá ânsias de vomitar. A bondade era morna e leve, cheirava a carne crua guardada a muito tempo. Sem apodrecer inteiramente apesar de tudo. Refrescavam-na de quando em quando, botavam um pouco de tempero, o suficiente para conservá-la um pedaço de carne morna e quieta.

                                                   
                                           

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Espelho...

  Quando me surpreendo ao fundo do espelho assusto-me. Mal posso acreditar que tenho limites, que sou recortada e definida. Sinto-me, espalhada no ar, pensando dentro das criaturas, vivendo nas coisas além de mim mesma.
  Quando me olho no espelho não me assusto porque seja feia ou bonita. É que descubro de outra qualidade. Depois de não me ver há muito quase esqueço que sou humana e sou com a mesma libertação de fim e de consciência quanto uma coisa viva. Minha boca meio infantil, tão certa de seu destino, continuo igual a si mesma apesar de minha distração total. Às vezes, à um olhar constante ao espelho, um sorriso de compreensão para os que me olham. Período de interrogação ao meu corpo, de gula, de sono, de amplos passeios ao ar livre. Até que uma frase, um olhar relembram-me surpresa outros segredos, os que me tornam ilimitada. É a vida? Mesmo assim ela me escaparia. Outro modo de captá-la seria viver. Mas o sonho é mais completo que a realidade, esta me afoga na inocência.
  O que importa afinal: viver ou saber que se está vivendo? - Palavras muito puras, gotas de cristal. Sinto a forma  brilhante e úmida debatendo-se dentro de mim. Mas onde está o que devo dizer? Inspirai-me, eu tenho quase  tudo; eu tenho o contorno à espera da essência; é isso? - O que deve fazer alguém que não sabe o que fazer de si?
   Tudo o que possuo está muito fundo dentro de mim. Um dia, depois de falar, enfim,  ainda terei do que viver? Ou tudo o que eu falasse estaria do outro lado de cá e além da vida?
   No momento em que fecho a porta atrás de mim, instantaneamente me desprendo das coisas. Tudo o que foi distancia-se de mim mergulhando surdamente nas águas longínquas. Mas, mesmo assim, na solitude branca e limitada onde caio, ainda estou presa entre montanhas fechadas. Presa. Ando sobre trilhos invisíveis. Prisão, liberdade. São  essas as palavras que me ocorrem.